sexta-feira, 4 de março de 2011

Pela Rua

Uma noite nesta rua
tu me levas pela mão.
E serena, como nua
flutuo acima do chão.

Tu inspiras poesia
eu expiro partituras
de uma música vazia,
um poema sem lisuras.

Uma serenata calada,
um auto na madrugada
e nós dois a caminhar.

Sinto um gélido desejo
de um sonho ou um beijo
nesta noite sem luar.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Assim

Tem sido assim
verdadeiro
e foi também
inesperado.

Um dia sim
um dia não
um dia bom
o outro em vão.

Passando a vez
até fingindo
ainda amigos
ainda sorrindo.

Um dia foi e
a noite enfim
você parou
caiu por mim

Na hora que
eu disse adeus
te tive então
nos braços meus.

Três vezes você
minha boca beijou
três vezes assim
me conquistou.

Então te quis,
te quis para mim
Mas disse adeus
mesmo assim.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A Menina Que Queria Ser Tudo

De sozinha que era a menina vivia procurando. Não podia imaginar que por sentir falta de tudo acabava buscando incessantemente o nada. No vazio dos seus dias ela brincava de entender o que é ser feliz, inventava uma satisfação e fazia de conta alguns sorrisos sabendo que, na verdade, de muito carecia e de pouco entendia. Ela queria ser o chão e acabava pisoteada, queria ser o ar e acabava reciclada, queria ser um vício mas acabava largada, queria ser o sonho e assim não se realizava. A menina via em todos o início de uma bela história e quase nunca se via pertencente a uma delas, figurava os romances e contava as comédias mas nada amava e de nada ria. Lembrava de quando ela importava muito sem significar nada, de quando não tentava e conseguia. Sentia inveja dela mesma em outros tempos que viveu. Ela queria ser tudo aquilo que já foi mas tinha ciência de que não podia mais tentar. A menina não chorava, só esperava eventualmente encontrar um motivo para sorrir. Buscava, em pessoas, em livros, em fórmulas, em ruas e casas...buscava mesmo sem saber o que a aguardava. E um dia ou uma noite em que se viu prostrada ao pé de uma estrada a menina decidiu: "Se de tudo eu não for nada, vou sozinha, sigo calada".

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A Sensatez do Ser Corajoso.

Não sentimos tudo aquilo que devemos e não falamos tudo aquilo que queremos. Deixa-se limitar aquele que não tem coragem ou aquele que é sensato, mas a linha entre os dois não é tão tênue como dizem tantos. O ser que sente é o mesmo que quer se expressar e até o que não sente deseja que isso seja comunicado, pois afinal, temos necessidade de libertar os pensamentos ou mesmo a plenitude do nada que nos pertencem.
Falar e não sentir ou sentir e não falar é um traço comum daqueles que se limitam à mediocridade emocional através de mentiras, omissões ou inibições. Por medo de externar sensações, somos capazes de esconder até de nós mesmos o potencial de sentir e isso nos leva a tolher a vontade de falar sobre qualquer coisa que remeta à emoções.
A verdade é que ninguém quer errar e todos sabem que os sentimentos e suas expressões, sem dúvida alguma, apresentam grandes riscos. Assim, fica estipulado que é mais simples ignorar ambos 'problemas' e seguir vazio do que enfrentar suas possíveis consequências. Entretanto, o mais difícil de toda essa epopeia sentimental é decidir quem é o sensato e quem é o covarde. Penso que o que torna essa definição um dilema é o fato de que qualquer um faz de tudo para se justificar e se provar incorrigível e desse jeito, nos tornamos todos uma multidão de sensatos mesmo quando nos privamos daquilo que pode nos libertar e fazer feliz.
Que não vire mania mas um mero hábito do ser humano fazer a si próprio o favor de sentir mais. Sinta paixão, nervoso, sinta frio ou calor no mais figurado dos sentidos, sinta raiva, vez ou outra, mas sempre sinta o dobro de vontade de falar sobre isso. Grite, cante ou chore mas expresse o que precisa e o que quer. Incógnitas não servem para nada a não ser que haja alguém que as possa decifrar. Seja sensatamente corajoso e faça transparecer o que te faz existir!

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Poder e Não Querer.

Eu nasci chorando. Chorava quando tinha fome e não sabia dizer e ainda mais quando queria colo. Chorei de pirraça, chorei por levar bronca por causa da pirraça, chorei pra disputar atenção com minhas irmãs e porque não queria comer salada. Chorei quando tive que mudar de cidade, quando não via mais vovó e meus primos todos os dias. Quando meu gatinho morreu, eu chorei. Quando vi mamãe e papai brigando, também. Quando tive minha primeira discussão com uma amiguinha ou quando mamãe não deixava eu ir pra casa dela passar a noite só soube chorar. Quando meu primeiro amor puxou meu cabelo ao invés de me dar um beijinho no rosto ou segurar minha mão, eu chorei. Troquei de colégio e me pus a chorar, levar bronca de professora foi só mais um motivo. Minha irmã me delatava pra minha mãe e eu chorava de raiva. Chorei ao pensar em fugir de casa e ao notar que não seria nada sem mamãe. Chorei de coração partido, ah como chorei. Chorei de brigas sem motivo, ah como chorei! Chorei de tanta saudade e de tanta vontade, chorando me vi também de tanto arrependimento. Fui embora outra vez e chorei nos ares, chorei na terra e chorei no mar. Voltei chorando, coração apertado, já havia aprendido o que é amar. Briguei mais, e tirei notas baixas, tomei um porre e acabei chorando por tudo ao mesmo tempo. Chorei rápido, chorei devagar, chorei alto e baixinho só pro travesseiro escutar. Senti na pele a ilusão e mais uma vez eu me acabei de chorar. De dor física, de dor sentimental, de dor na teoria e dor na prática, chorei. Me escondi pra chorar e chorei pra me mostrar. Deus e eu sabemos o quanto e o por que de cada vez que eu chorei!
Mas à beira de outro choro me lembro, de repente, que também de alegria eu chorei. De rir gostoso com amigas "meu olho chorou". Depois do alívio e depois do perdão lágrimas caíram com facilidade e ainda mais eu chorei quando conheci A Verdade. Vendo filmes e lendo livros, caí no choro tantas vezes, logo logo aprendi a chorar por pena dos outros e não de mim mesma. Percebi que podia mas não queria chorar, passei a chorar só quando precisava, quando alguém partia e não mais voltava. Hoje mesmo, que vontade de chorar mas desse jeito cheguei a uma conclusão: Chorei de tristeza e de muita emoção e de repente me vi cansada de chorar e foi bem ai que eu decidi parar. Afinal, se eu já nasci chorando, para que continuar?

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Funções,Causas e Efeitos.

Análise incompleta e impertinente mas ainda assim, muito importante de algo que todos nós conhecemos, ou melhor, sentimos bem: A saudade.

"Sentimos saudade de certos momentos da nossa vida e de certos momentos de pessoas que passaram por ela." Carlos Drummond de Andrade
A conjugação de verbos no pretérito tem uma capacidade incrível de instalar em nós um tormento cuja proporção é variável e cuja solução, muito pelo contrário, é única. Não me entendam errado, nem tudo o que é passado deixa saudade assim como nem tudo que é futuro causa surpresa. O importante é que se alguma coisa lhe faz falta significa que foi algo bom e memorável.
Há vezes que sentimos falta daquilo com que estamos muito acostumados. Sentimos falta de nossos pais, de nossa cidade natal, sentimos falta do antigo colégio e assim por diante. Outras vezes temos saudade daquilo que correu ligeiro por nossas vidas mas marcou tanto quanto ou ainda mais do que qualquer rotina e qualquer costume. De todo jeito, quando nos damos conta de que algo ou alguém que tanto nos faz bem, não está mais lá, há um choque interno que dá origem à saudade. Esse sentimento que surge quase que instantâneamente dita suas ações, pensamentos e claro, outros sentimentos seguintes, e não há muita coisa a ser feita além de aceitar e conviver.
Para quem acha que a saudade não serve para nada além de torturar, intrigar e chatear eu tenho uma notícia: a impressão de falta e vazio que se tem é útil em vários aspectos justamente por interferir em âmbitos diversos de nosso sistema. Desse jeito tomamos decisões, sábias ou não; formamos opiniões e até teorias e mais; temos a oportunidade de remanescer o quanto for possível sobre o assunto. Enquanto houver a saudade, tudo permanece onde estava, por mais longe que esteja, por mais inalcançável que seja. É essa a beleza de um sentimento obscuro que aflige a tantos.
A grande verdade é que a dualidade invade o indivíduo saudoso e é isso que causa o sofrimento. Não saber se a distância vai machucar ou fazer bem, se é para sempre ou por um segundo, é isso que atormenta: o constante não saber. E se a saudade não for recíproca? E se não vale a pena o tempo perdido? Quase nunca há uma certeza e é por isso que dói estar longe do que se gosta.
Por fim, a saudade é lembrança, é fonte inesgotável de água que não jorra mais e se lembranças (tanto as doces quanto as amargas) nos servem bem, também deve a saudade valer de alguma coisa para nós. Por outro lado, já que tudo é dualidade quando se pensa em sentimento, Clarice Lispector já disse: "Saudade é um dos sentimentos mais urgentes que existem." Concordando com ela só posso pensar que apesar de seus valores, a saudade transtorna e transforma e seja isso bom ou ruim, a ambiguidade traz a confusão e a confusão nos faz perder a calma e isso leva à nostalgia e complicações que deveriam ser evitadas. E como evitá-las? Como já disse, só há uma solução: amar mais o que nos faz falta do que odiar a distância que nos separa.