Análise incompleta e impertinente mas ainda assim, muito importante de algo que todos nós conhecemos, ou melhor, sentimos bem: A saudade.
"Sentimos saudade de certos momentos da nossa vida e de certos momentos de pessoas que passaram por ela." Carlos Drummond de Andrade
A conjugação de verbos no pretérito tem uma capacidade incrível de instalar em nós um tormento cuja proporção é variável e cuja solução, muito pelo contrário, é única. Não me entendam errado, nem tudo o que é passado deixa saudade assim como nem tudo que é futuro causa surpresa. O importante é que se alguma coisa lhe faz falta significa que foi algo bom e memorável.
Há vezes que sentimos falta daquilo com que estamos muito acostumados. Sentimos falta de nossos pais, de nossa cidade natal, sentimos falta do antigo colégio e assim por diante. Outras vezes temos saudade daquilo que correu ligeiro por nossas vidas mas marcou tanto quanto ou ainda mais do que qualquer rotina e qualquer costume. De todo jeito, quando nos damos conta de que algo ou alguém que tanto nos faz bem, não está mais lá, há um choque interno que dá origem à saudade. Esse sentimento que surge quase que instantâneamente dita suas ações, pensamentos e claro, outros sentimentos seguintes, e não há muita coisa a ser feita além de aceitar e conviver.
Para quem acha que a saudade não serve para nada além de torturar, intrigar e chatear eu tenho uma notícia: a impressão de falta e vazio que se tem é útil em vários aspectos justamente por interferir em âmbitos diversos de nosso sistema. Desse jeito tomamos decisões, sábias ou não; formamos opiniões e até teorias e mais; temos a oportunidade de remanescer o quanto for possível sobre o assunto. Enquanto houver a saudade, tudo permanece onde estava, por mais longe que esteja, por mais inalcançável que seja. É essa a beleza de um sentimento obscuro que aflige a tantos.
A grande verdade é que a dualidade invade o indivíduo saudoso e é isso que causa o sofrimento. Não saber se a distância vai machucar ou fazer bem, se é para sempre ou por um segundo, é isso que atormenta: o constante não saber. E se a saudade não for recíproca? E se não vale a pena o tempo perdido? Quase nunca há uma certeza e é por isso que dói estar longe do que se gosta.
Por fim, a saudade é lembrança, é fonte inesgotável de água que não jorra mais e se lembranças (tanto as doces quanto as amargas) nos servem bem, também deve a saudade valer de alguma coisa para nós. Por outro lado, já que tudo é dualidade quando se pensa em sentimento, Clarice Lispector já disse: "Saudade é um dos sentimentos mais urgentes que existem." Concordando com ela só posso pensar que apesar de seus valores, a saudade transtorna e transforma e seja isso bom ou ruim, a ambiguidade traz a confusão e a confusão nos faz perder a calma e isso leva à nostalgia e complicações que deveriam ser evitadas. E como evitá-las? Como já disse, só há uma solução: amar mais o que nos faz falta do que odiar a distância que nos separa.