quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A Menina Que Queria Ser Tudo

De sozinha que era a menina vivia procurando. Não podia imaginar que por sentir falta de tudo acabava buscando incessantemente o nada. No vazio dos seus dias ela brincava de entender o que é ser feliz, inventava uma satisfação e fazia de conta alguns sorrisos sabendo que, na verdade, de muito carecia e de pouco entendia. Ela queria ser o chão e acabava pisoteada, queria ser o ar e acabava reciclada, queria ser um vício mas acabava largada, queria ser o sonho e assim não se realizava. A menina via em todos o início de uma bela história e quase nunca se via pertencente a uma delas, figurava os romances e contava as comédias mas nada amava e de nada ria. Lembrava de quando ela importava muito sem significar nada, de quando não tentava e conseguia. Sentia inveja dela mesma em outros tempos que viveu. Ela queria ser tudo aquilo que já foi mas tinha ciência de que não podia mais tentar. A menina não chorava, só esperava eventualmente encontrar um motivo para sorrir. Buscava, em pessoas, em livros, em fórmulas, em ruas e casas...buscava mesmo sem saber o que a aguardava. E um dia ou uma noite em que se viu prostrada ao pé de uma estrada a menina decidiu: "Se de tudo eu não for nada, vou sozinha, sigo calada".